Arquivo da categoria: Viagem

Imagens de Parati: Portas



[Portas, upload feito originalmente por Miguel Galves.]

Típica casa de Parati. Foto tirada durante a Feira Literária Internacional de Parati (FLIP) 2007

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10 cidades em 2 dias

Cenário típico: um brasileiro(a) resolve ir pra Europa. Vai em uma agência de viagens e compra um pacote de 10 dias, durante os quais serão visitadas 10 cidades, com direito a passagem nos principais pontos turísticos de cada uma com 10 minutos para tirar N fotos de cada.

A desculpa mais comum na verdade são duas: 1) na Europa é tudo pertinho e é fácil de se locomover e 2) nunca se sabe quando se terá a oportunidade de voltar. Ambas são verdadeiras. Mas a segunda tem sua validade questionável: uma boa analogia seria o cidadão resolver ir almoçar no Fasano e pedir um prato com um pouco de cada comida que eles fazem lá, para poder aproveitar.

Afinal das contas, qual o objetivo? conhecer mimimamente um lugar ou ter foto diante da Torre Eiffel e dizer que foi pro Big Ben? Recentemente, um amigo meu que iria viajar pra Europa pediu meu conselho sobre o que fazer com 4 dias livres. Ele chegaria em Paris num dia e embarcaria para o Brasil 4 dias depois. Eu falei que ficaria todos os dias passeando na cidade. Resposta: “Mas tem o que fazer nesses 4 dias lá?”. Eu respondi que só de ponto turístico tinha o suficiente e que eu já tinha ido milhares de vezes para lá e que a cada vez descobria coisas novas. Não adiantou: ele resolveu passar 2 dias em Paris e 2 dias em Londres.

Considero que conhecer um lugar não significa apenas ir nos pontos famosos. Significa também conhecer a cultura, as pessoas, comidas, músicas, curtir o ambiente. E isto apenas com um mínimo de tempo. Meu professor de fotografia gosta muito da palavra flanar: andar por aí, prestando atenção no ambiente, vendo as pessoas passando, curtindo. É algo que eu já gostava de fazer e que como curso de fotografia só aumento: ficar contemplativo.

Sem contar que no esquema N cidade em M dias, onde N é praticamente igual a M (se não maior), existe sempre a tensão de que o ônibus/trem/avião vai sair, que precisamos passar por outros lugares antes de sairmos da cidade, e portanto temos que ver tudo correndo, não se pode nem tomar um cafezinho num bar tranquilamente. Volta-se quase que mais cansado do que quando se saiu.

Pessoas: flanem!

Imagens do campo: Capelinha

Capelinha, upload feito originalmente por Miguel Galves.

Capelinha de fazenda em noite estrelada. Esta foto foi tirada em parceiria com a minha namorada durante um final de semana de imersão de fotografia organizado pelo curso da escola Riguardare.

Reflexos de Parati

No último feriado (entre 7 e 9 de julho) estive em Parati, na Feira Literária Internacional. FLIP, para os íntimos.

Eis alguns comentários aleatórios sobre o evento:

* Aconselho fortemente.

* É incrível como mesmo sendo federal, a BR 101 (também conhecida como Rio-Santos) pior após a divida de São Paulo com o Rio.

* Parati continua linda, toda arrumada e preservada.

* O ambiente durante o evento era extremamente agradável, em torno da tenda onde ocorriam os debates e na cidade em geral. Um local muito agradável era a praça da flipinha, a FLIP para crianças. Uma das coisas que eu achei mais gostoso foi o fato que as pessoas não pareciam preocupadas com violência, roubos…muitos (incluindo eu) andavam com câmeras, laptops e otras cosas más.

* Assisti a 3 palestras: uma sobre Nelson Rodrigues (tema da FLIP deste ano), uma sobre o livro Passado (de um autor argentino) e outra com o Paulo Lins (escritor de Cidade de Deus) e Ismael Beah, que quando criança lutou na guerra em Serra Leoa.

* A última palestra foi a melhor, na minha opinião. O Ismael Beah era um cara incrível: com 26 anos ele teve sua familia dizimada pela guerra, foi forçado a entrar no exército, matou muita gente, conseguiu sair de lá graças à UNESCO e hoje é escritor e tem diploma universitário.

* O Paulo Lins é de uma sinceridade desconcertante. Logo de cara, ele disse que a classe média brasileira é hipócrita, um horror, e que só se preocupa com aquilo que pode acontecer com ela. Citou o exemplo do menino João Hélio, que morreu arrastado por bandidos. e o exemplo de uma mulher que morreu grávida que morreu tentando achar um hospital para se internar. Ambos aconteceram na mesma semana. O primeiro caso causou comoção nacional, porque é algo que atualmente pode acontecer com qualquer um. O segundo caso não, porque todo mundo de classe média tem sua carteira do plano de assistência médica.

Em outro momento, o mediador (muito bom, promoveu um verdadeiro debate de idéias entre os dois autores) perguntou se ele considerava que a literatura o havia salvado (Paulo Lins cresceu na favela e morou na cidade de Deus durante muito tempo). Resposta: “Não. Literatura é a minha profissão, meu modo de ganhar a vida. Quem me salvou foi minha mãe, minha família, que me deram toda a estrutura necessária”. E logo após isso, emendou: “quem salva mesmo, e ajuda a estruturar, além da família, é grana..”