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Permeabilizando Sampa

O Brasil parece ter uma relação extremamente complicada com águas. Em alguns lugares, falta e a seca é uma praga. Em outras, o excesso transforma cidades em rios, ou lagos. Em São Paulo, as fortíssimas chuvas cotidianas tem transformado o fim de dia de quem vive aqui em verdadeiros pesadelos. A cidade não aguenta nem 20 minutos de chuvas mais fortes, sem que vários pontos de alagamento se formem nas ruas.

É ridículo.

Parte da culpa é do processo totalmente selvagem de urbanização, que impermeabilizou completamente a cidade. Ainda hoje, algumas obras continuam aprofundando isso, como por exemplo a ampliação da marginal que está transformando os poucos canteiros com grama em pistas. Afinal, aqui o carro é rei.

E os piscinões, insuficientes, não dão conta das coisas.

Pensando nesta questão de impermeabilização, área verde e contenção de água, me veio uma idéia na cabeça, talvez ingênua, mas que me parece fazer sentido: e se o poder público fizesse ações para incentivar a instalação de cisternas e jardins suspensos nos prédios e casas? Isso com certeza diminuiria a quantidade de água despejada nas ruas e nos bueiros já saturados. Afinal, o grande problema não é a quantidade de água, mas sim a quantidade de água em um curtíssimo espaço de tempo. E a água das cisternas ainda poderia ser reaproveitada para uso em lavagem de calçadas e privadas.

Em vez de alguns poucos piscinões, uma infinidade de piscininhas e jardinzinhos.

Alguém aí consegue achar o furo na minha idéia?

Cotidiano Cão

O bom e velho clichê futebolístico se encaixa bem: “Estava lá um corpo estendido no chão”. Na verdade, do corpo em si não se via nada. Estava coberto por uma lona plástica. Mas a cena era inequívoca, sobretudo pra quem já leu meia dúzia de livros policiais ou viu filmes do mesmo gênero: um esquina fechada por faixas amarelas, duas viaturas de polícia, alguns policiais militares esperando, um monte de curiosos na esquina oposta, e a lona no chão. Já sabíamos que um assassinato havia acontecido: uma amiga que estava na festa junina com a gente tinha avisado. Um cara saiu da festa, e foi assassinado numa esquina próxima.

Confesso que a cena, apesar de chocante, me chocou menos do que eu poderia imaginar. Existem cenas que vemos em filmes, mas que nunca que torcemos para nunca ver na vida real. Já vi um cara sendo atropelado na minha frente. Agora vi um corpo de um homem que acabava de ser assassinado. Será que morar em São Paulo deixa a gente tão blasé assim?

Obviamente, pairava a dúvida: o que tinha motivado o assassinato? Era reconfortante pensar que aquilo foi caso planejado. O cara seria algum mau-caráter devendo dinheiro para o tráfico, e foi acerto de contas. Mas conhecendo o cotidiano de São Paulo, e tendo em vista que estávamos saindo da festa junina de um dos clubes mais tradicionais da cidade, o Pinheiros, o mais provável era de que a causa fosse assalto. Talvez ele tivesse reagido, talvez não: a vida não vale muita coisa nos dias de hoje. Será que alguém presenciou isso? Provavelmente sim, tendo em vista que na esquina oposta tem um restaurante, que estava bem movimentado. Com certeza, a minha reação não seria tão blasé se eu presenciasse este tipo de cena.

Chegamos em casa. Na tevê, o Justus estava lançando um CD no Programa do Jô. Cada coisa….

E nem tudo é um mar de rosas

Escrevi aqui duas vezes sobre as maravilhas de se ir ao trabalho de ônibus. Sinto-me portanto na obrigação de relatar os contras. Hoje acordei com a intenção de ir à academia de manhã. As 8 estava no ponto (o ideal teria sido chegar as 7h30, mas belê). Às 8h20 eu desisti: todos os ônibus de interesse estavam absolutamente lotados, a ponto de ser impossível sequer pensar em entrar.

Aliás, é interessante notas como as linhas são desbalanceadas. Tanto a Itaim (106-A) quanto a Vl Olimipa (6104-10) estavam completamente lotadas. E outras linhas estavam vazias. Mostra uma certa falta de otimização dos recursos.

E o que eu fiz? voltei para casa, desisti do plano de academia matutina (irei a noite) e vim relatar este fato aos meus queridos leitores.

Um mês depois

Pouco mais de um mês depois de ter decidido parar de usar o carro para ir para o trabalho (e portanto pouco mais de um mês pegando ônibus duas vezes por dia praticamente todo dia), venho a publico afirmar: a decisão não poderia ter sido mais acertada!!!

Há um mês eu não tenho que enfrentar o trânsito sem fim, perdendo a paciência com todos os espertinhos que querem se dar melhor e só fazem piorar a situação global (algum dia ainda perco um tempinho esquematizando todas as pérolas causadas no trânsito por motoristas paulistanos). Há um mês eu ouço músicas e leio pelo menos duas vezes por dia, durante meia hora. Aliás, devo dizer que fazia tempo que não lia de forma tão regular. Sou muito de fases em termos de leitura, e atualmente estou na minha fase de baixa.

Obviamente, como eu disse eu tenho a vantagem de ter horários bastante flexíveis, o que me permite escolher horários mais apropriados. Também tenho a sorte de ter um ônibus que passa na porta da minha casa e me deixa literalmente na porta do meu trabalho. E também é importante ressaltar que estamos numa época mais seca e que portanto, até agora, não tive que enfrentar grandes temporais.

E é sempre bom reconhecer que muitas vezes, de manhã, eu tenho que esperar dois ou três ônibus, até ter um com lotação decente. Mas isto não é grave, porque tenho duas linhas que me levam pra região do meu trabalho, e o tempo de espera nunca passa de 20 minutos.

Tem um carro a menos no trânsito paulistano…

O meu! Descobri que tem uma linha de ônibus que vai direto para a rua da minha empresa. O ponto na 9 de Julho é a 50 metros de casa. Perfeito.

Engraçado que em São Paulo, quem tem carro em geral não tem o reflexo de verificar se existe uma opção de transporte público. Eu só tinha este reflexo quando era estudante desmotorizado. E não sejamos hipócritas, ingênuos ou polianas: as pessoas não pensam nisso simplesmente porque o transporte público em São Paulo é de forma geral ruim. E o carro é o modo de transporte individual mais eficiente.

Mas fato é que em 2008, ficou visível que a cidade está próxima de um colapso. Estamos batendo recorde atrás de recorde em kilómetros de vias congestionadas. São Paulo está parando! Mas a real ironia disto tudo é que dependendo de onde você pretende ir de carro, parar é algo extremamente cansativo e estressante. A Vila Olímpia, onde eu trabalho, é um desses casos. Todos os estacionamentos (ou pedaços de terrenos abandonados que o povo chama de estacionamento) estão lotados, com filas de espera de gente querendo ser mensalista. As poucas vagas disponíveis nas ruas são preenchidas logo cedo, por volta das 7h da matina (horario impossível pra mim).

Como eu falei no meu post “Bonde é legal“, o grande desafio para desafogar o trânsito hoje é fazer com que as pessoas que utilizam carro diáriamente passem a utilizar algum tipo de sistema coletivo: bonde, ônibus, metrô, van, carona. Grande parte das pessoas que trabalham na Vila Olímpia (e em muitos outros bairros da cidade) se encaixam no perfil “paulistanos que usam carro diariamente”. Cada vez mais eu penso que deveria ser colocado em prática um sistema de transportes executivos que fossem de bairros chave para bairros chave, e que a prefeitura deveria oferecer algum tipo de incentivo para este tipo de transporte.

Mas voltando ao assunto inicial, eu decidi pegar o ônibus. Tem algumas desvantagens, como o desconforto em certos horários. Mas tenho a vantagem de ter um horário bastante flexível que me permite pegar ônibus em horários mais tranquilos (tenho também uma namorada que trabalha numa região próxima à minha, o que pode ser prático em dias complicados). E tem a vantagem de ser bem mais rápido nos corredores: os meus trajetos de ônibus foram sempre pouquíssimo mais longo do que de carro, inclusive em dia de grande engarrafamento. E eu ainda economizo na gasolina, desgaste, estacionamento e sobretudo na paciência.

Reciclagem

Finalmente, eu e minha namorada conseguimos implantar em casa um sistema de reciclagem de lixo (vidro, papel, plástico e metal). Meus pais fazem isso em Campinas há vários anos. Lá eles tem a vantagem de ter espaço físico para armazenar uma boa quantidade de papel velho, jornais, lataas, potes e garrafas de vidro. De tempos em tempos este material é doado para instituições que reciclam, recuperam ou vendem. Há alguns anos atrás, o dono do ferro velho local passava lá para recuperar muita coisa. E muitas coisas, como potes, garrafas de vidro e jornais velhos são reutilizados lá em casa mesmo.

Aqui em Sampa é mais complicado. Primeiro porque falta espaço. Mas sobretudo porque fica sempre aquela dúvida: “o que raios eu faço com este material que eu deixei de lado?”. Existem alguns locais de coleta, como as lojas do Pão de Açucar, mas faltava disciplina da minha parte para levar. A última vez que eu pensei em  fazer isso, fiquei com um saco de garrafas de plástico no porta-malas do meu  carro por quase duas semanas.

Mas agora algumas coisas mudaram. No nosso novo prédio existe uma caçamba especial da Prefeitura para lixo reciclável. Portanto, não existe mais desculpas para não implantar o sistema em casa. Mas faltava uma coisa: uma lata de lixo diferenciada….não falta mais: comprei uma lata verde, que fica do lado da lata amarela para lixo comum.

O resultado imediato é que o volume de lixo não reciclável (basicamente orgânico) foi reduzido em mais da metade. Quando pensamos na escala de uma cidade gigantesca como São Paulo, é fácil imaginar o efeito que uma ação desta faz em relação à diminuição da carga levada diariamente para lixões.  Quero muito acreditar que este lixo é realmente levado para tratamento especial,  e não levado para lixões comuns, como fazia o Dr. Paulo há alguns anos atás. E basta estar atento ás notícias locais para perceber que a questão dos lixões é um real problema da cidade: o prefeito Kassab tinha até um plano para vender créditos de carbono para financiar obras de aproveitamento do gás gerado nestes depósitos. E o valor era da ordem de alguns bilhões de dólares. Não sei em que pé está este projeto.

Meu próximo sonho de consumo, nesta mesma linha de racionalização do uso de recursos, é morar em um lugar que tenha um sistema interno de reaproveitamento da água. A lógica é simples: a água utilizada nas pias, chuveiros e tanques deixa de ser apropriada para a ingestão e higiene, mas pode muito bem ser reutilizada em privadas por exemplo, economizando algo como 6 litros de água limpa e tratada a cada descarga. Basta para isso um tratamento adequado. Existem algumas casas de pessoas concientes que já possuem este sistema. E existem também alguns prédios comerciais, como por exemplo o Shopping Parque D.Pedro em Campinas.

Skyline Sampa

Skyline 1, upload feito originalmente por Miguel Galves.

E quem disse que é impossível ter alguma vista agradável em Sampa?